Artistas LGBTQI’s de Belém que tu precisas conhecer

Artistas LGBTQI’s de Belém que tu precisas conhecer

Texto Daisy Feio

Junho é um mês especial para o movimento LGBTQI. Dia 28 de Junho se comemora o dia do Orgulho LGBTQI, a data foi criada em alusão a um episódio ocorrido no bar Stonewall Inn (Nova Iorque), em 1969. O Local era comumente frequentado pela comunidade LGBTQI. No episódio em questão, o público do bar reagiu a uma série de batidas policiais que aconteciam corriqueiramente no local. O que desencadeou diversos protestos pela liberdade sexual e de gênero da comunidade. E assim, a data ficou conhecida mundialmente como o dia do orgulho LGBTQI. Pensando nisso, e olhando para nossa região, fizemos uma lista com quatro artistas locais que movimentam a cultura em Belém e envolvem temáticas LGBTQI em suas práticas artísticas. Conheça um pouco mais sobre eles:

L – Ariadme Sarraff:

Ariadme tem 21 anos, é ilustradora, fotógrafa, faz colagens e cadernos personalizados. Em seu trabalho, produz sobre individualidade feminina, faz sátiras ao machismo e fala sobre vivência lésbica. Ela denomina sua arte como transformação: “é pegar um papel e possibilitar que ele seja mais do que aquilo, a partir dos meus traços, fazer algo existir ali, ou então pegar um material que seria jogado no lixo e transformar num produto de estética ou crítica”, explica ela.

É na arte que ela encontra uma forma de discutir e expor temas sobre sua vivência como lésbica: “Eu como artista lésbica, existindo em Belém, posso debater sobre muitas coisas que estão presas na vivência lésbica, com quem não sabe sobre nossa realidade. Acho que permitir esse debate visualmente torna ele mais didático, e até divertido, mesmo que seja tão difícil se expressar sendo lésbica num país homofóbico”, ressalta.

Ariadme sempre participa de eventos LGBTQI’s expondo e vendendo cadernos personalizados, adesivos, entre outros trabalhos. Sua arte é sobre resistência, ela tem como objetivo incentivar outras artistas lésbicas, e também a união entre as mulheres. Para ela é fundamental que a arte e a produção de pessoas que são invisibilizadas cresça na cidade.

G – Rodrigo Leão:

Rodrigo Leão é artista visual, ilustrador e um dos criadores da hashtag #ilustrapreticepa, que vem reunindo artistas negros, tanto na internet quanto em eventos e outras organizações. Desde criança, Rodrigo é amante dos quadrinhos, o que influenciou nos traços do ilustrador e na sua visão educacional. Depois de entrar na faculdade de licenciatura em Artes Visuais, onde teve mais contato com movimentos sociais, o artista voltou seu olhar para o lado didático e comunicativo presente na arte: “Passei a querer contribuir em discussões e principalmente compartilhar conhecimentos de alguma forma. Voltar minha atenção pros quadrinhos, que sempre me instigaram muito mais na leitura, foi uma forma de facilitar essa comunicação”, afirma o artista.

Em suas ilustrações, Rodrigo representa sempre corpos humanos familiares, que fazem parte do meio em que ele está inserido, além de outros corpos reais. “Enquanto LGBT, as representações de corpos/identidades

não heteronormativas foram fluindo naturalmente, desde a minha adolescência, mas eu só passei a me preocupar em agregar no meu traço figuras negras pouco tempo antes de entrar na Universidade. Hoje em dia, é natural para mim desenhar pessoas negras e LGBT’s, sem reduzir essas pessoas somente ao discurso anti-lgbtfóbia/anti-racista. Acho que falar sobre temas universais, retratando pessoas negras/LGBT nestes mesmos temas é também uma forma de humanizar esses corpos, que ou são marginalizados ou são fetichizados e reduzidos à uma pauta”, ressalta ele.

Para Rodrigo, ser um artista negro e gay é movimentar a cultura, mas não receber o reconhecimento que merece. É estar séculos atrás por conta de um crime histórico: “Ser artista negro é ser artista, e no exercício dessa “posição” social, sofrer racismo em todos os aspectos possíveis. E independente de todo o racismo, é também carregar um legado e uma ancestralidade extremamente potente. Nós criamos e reinventamos muito do que é consumido na cultura pop mundial. Estamos por trás de alguns dos maiores divisores de água nas artes, apesar de muitas vezes pessoas brancas estamparem os livros e receberem a glória. Enfim, ser artista negro é ser foda só de chegar no ponto de se dizer artista, porque em todo o percurso existem 500 anos de história tentando nos empurrar pra trás”.

B – Dalila Costa:

Dalila Costa é atriz, mulher negra e bissexual. Seu primeiro contato com a arte foi guiado pelo pai, que falava sobre música, teatro e cinema para ela. Quando passou a fazer teatro sentiu um poder de transformação muito grande. Para ela, a arte é o canal onde se pode gritar, expressar, denunciar tudo o que não deixam falar, é romper os silêncios e transformar.

Atualmente ela executa uma pesquisa sobre o corpo artista que vem da floresta: “Apesar de ter pessoas negras por todo Brasil, é inegável a cultura da mata, das ervas, de superstição que nos acompanham por todo canto. Quero contar essas histórias que não estão nas nossas escolas, essa medicina popular que não está nos hospitais. Fazer com que os pretos da minha família que ainda moram na mesma comunidade quilombola, saibam que o que eles fazem é ciência, é arte, é cultura e que não precisam do aval do homem branco acadêmico para que isso seja válido”, comenta a artista.

Dalila ressalta que os artistas negros e LGBTQI’s são geralmente taxados, pela imagem que carregam, que é vista de forma estereotipada pela sociedade racista e lgbtqifóbica. Mas estar em rede com os outros colegas de profissão é o que a fortalece: “Acredito que o nosso objetivo enquanto artistas é reafirmar o que nós somos e como expressamos o que somos. O que me dá muita força é somar com essa galera que tá no mesmo corre, amigos com projetos incríveis pra comunidade, valorizando a cultura da periferia, minha namorada que tem um trabalho incrível potencializando a voz das mulheres dentro da música paraense, e assim eu me sinto forte e através dessa força a gente chega no topo”.

Para ela, a arte é um processo de autoconhecimento: “ Me pergunto sempre o que eu sou, o que é esse corpo na sociedade e tudo mais, mas nem sempre espero uma resposta para apresentar um resultado, através da cena eu questiono e talvez possa encontrar minhas respostas”.

T – Anastácia Marshelly:

Performer, negra e travesti, Anastácia traz em sua arte toda a ancestralidade que reencontra ao longo do seu processo de empoderamento. Resistência e arte bruta, são palavras que definem um pouco do seu trabalho nos palcos. Ela fala das referências que compõem sua arte: “Quando pensei em tomar o palco, me preocupei muito em relação à referências negras. Estudei várias histórias e dentre todas elas, a história da escrava Anastácia. Mulher preta, fruto do estupro (miscigenação). A história, conta que ela foi condenada a usar a máscara de Flandres por toda sua vida, por não se manter calada ao toque do homem branco. Trazendo isso para o atual, a máscara de Flandres representa toda essa represália que o racismo no Brasil nos faz suportar, e não só o racismo, o machismo/Lgbtfóbia, que me atravessam também”. É daí que vem o nome Anastácia, ressalta a artista.

Sua primeira apresentação aconteceu durante o Baile Coisa Preta, aos 16 anos. Desde o início da carreira, Anastácia tem como principal objetivo ser uma ferramenta para denunciar as opressões racistas e a lgbtqifóbicas que a população negra e LGBTQI enfrenta diariamente. “Por isso, também procuro estar sempre ativa em locais onde ninguém me esperava, aliás, do que adiantaria falar de Lgbtqifóbia para a própria comunidade?”.

A artista, teve como principal espaço de fortalecimento e empoderamento, o coletivo de Juventude Negra do Cedenpa, “a juventude do Cedenpa é um coletivo essencial na minha vida, pois eles me empoderaram através de texto, fotos. Exaltei aqueles blacks, vi a beleza deles e olhei pra mim. Daí a magia aconteceu, como num testemunho de uma pessoa que “conheceu Jesus”, a militância negra foi a minha salvação.” conta ela.

Para ela, ser uma artista travesti fazendo performances em eventos que tem como maioria homens héteros não é tão simples. Quando se fala em representatividade é bem complexo: “ Pois nos palcos, falo não só por mim. Atender todas as dores e mesmo assim manter a minha postura é complicado”, afirma a artista.

Anastácia tem como principal referência artística, a cantora Liniker: “Uma mulher que sempre me tocou tão profundo quanto eu queria tocar as pessoas com meu trabalho. Todas as vezes que me faltam forças, animação, é no Remonta/Goela Abaixo que me renovo”.

Em casos de LGBTIfobia entre em contato nos canais abaixo. Lembrando que LGBTIfobia agora é crime!

  • Gerência de Proteção à Livre Orientação Sexual (GLOS/SEJUDH)/ Endereço: Rua Vinte e Oito de Setembro, 339, Campina/ Telefone (91) 4009-2700
  • Conselho Estadual da Diversidade Sexual (CEDS)
  • Delegacia de Combate aos Crimes Discriminatórios e Homofóbicos (DCCDH/DIOE) / Endereço: Rua Avertano Rocha, 417, entre Travessas São Pedro e Padre Eutíquio / Telefone: (91) 3212-3626 / E-Mail: dccd@policiacivil.pa.gov.br

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *